COMO E POR QUE NASCEU A FILOSOFIA

O saber filosófico aparece como a mais profunda forma de conhecimento, representando uma conquista da razão humana, porque se trata de um exame crítico do qual o homem participa com todo o seu ser.

A elaboração da filosofia pressupõe todo o progresso científico contemporâneo, mas o seu sentido tem outra origem: surge antes da ciência, a partir do instante em que o homem desperta para a realidade, a partir do instante que ele toma contato com as coisas. Esta é uma filosofia sem ciência, mas que tem seu destino próprio, como fruto de uma reflexão em torno do homem e do universo.

De início, a inteligência humana se voltou para o universo e esse despertar da razão levou a buscar a origem do que era acessível aos sentidos. Não pensou o primeiro filósofo no imenso desconhecido, que se pôs além dos sentidos e procurou um elemento material, que pudesse gerar o universo harmônico de que ele mesmo participava.

Destarte, a primeira escola de filosofia, representada por Tales, Anaxímenes e Anaxímandro, tentou encontrar a solução para a insatisfação angustiante do homem face a face com o universo enorme, sujeito a constantes modificações, extinguindo-se e renovando-se continuamente. Um universo finito, no qual todas as coisas tendiam para a correção definitiva e, ao mesmo tempo, infinito, restaurando-se constantemente, desdobrando-se em seres, que realizavam seu ciclo temporal, perpetuando-se em outros seres.

Impotente para se furtar à força do tempo, que o arrasta irremediavelmente par a extinção, o homem é altamente potente para conferir existência a outros seres. Não tem poder sobre sua própria contingência e limitação, mas tem em si uma força criadora inesgotável. É criatura e criador.

Como explicar tudo isto? O homem vive de artes e raciocínios e já não s contentava com ver e quis saber o que via, fez filosofia e, como tal, procuro penetrar o desconhecido e descobrir a razão de ser de todas as coisas, criando para si a tarefa de saber, a tarefa de desvendar o que os sentidos não mostram; fez filosofia e começou a alargar o horizonte do se próprio conhecimento.

Tateando ainda, desconhecendo a extensão dos recursos de sua razão, quis proporcionar o encontro do homem com a origem de todas as coisas e, como não sabia ver além dos sentidos, identificou a origem do mundo com a matéria presente nos seres vivos. Acurou-se e percebeu que a unidade integra todas as coisas; inquietou-se na busca dessa unidade. Observou que a unidade, por sua vez, é presente em todos os corpos vivos, que secam e se desfazem em pó, quando se extinguem. Conferiu, então, à água o dom de geração do universo, depois, esse poder criativo foi ofertado ao ar, ao fogo, ao número, ao indefinido, ao indeterminado.

Sucederam-se as interpretações, mas elas não eliminavam a tremenda insatisfação do homem, que lhe mostrava sua pequenez e lhe dava uma angústia desorientadora diante de si mesmo. Os problemas se avolumaram e as interrogações se multiplicaram.

Que podemos conhecer? Tudo está sujeito à modificação ou haverá algo de imutável? O que somos hoje, agora, não seremos amanha, haverá, entretanto, um substrato em nós mesmos, que sofra toda a atuação do tempo sem se modificar? Se há, que substrato será esse? Quem engendrou essa harmonia universal? Haverá uma mesma origem para todas as coisas? Como essa origem pode imprimir infinitude ao universo, renovando-o, sem se esgotar? Por que somos fadados a viver e qual a nossa natureza? Nós somos algo, ou nada somos?

Diante dessas reflexões, o homem tomou dois caminhos diversos, na sua eterna ansiedade de descoberta de si mesmo: conhecer o universo, para depois conhecer o humano, reconhecendo ser o humano apenas um no universo; conhecer esse pequeno fragmento do cosmo, que é o homem, para através dele, aprender o próprio universo.

Assim, ora com uma orientação antropocêntrica, ora cosmocêntrica, o filósofo foi desenvolvendo uma auto reflexão e procurando as causas últimas e os primeiros princípios, que podem esclarecer a unidade do universo.

E a filosofia se foi afirmando, enraizando-se no âmago mesmo do ser humano. Definiu-se, delimitou-se seu objeto e lhe foi atribuída uma universalidade. Universalidade de objeto, que leva a razão humana a um exercício contínuo, a passar do dado sensível para a interpretação desse dado. E a intrínseca ansiedade e a imanente necessidade de saber do ser humano arrastaram até uma concepção do universo e uma interpretação da vida, norteando e pondo de claro a posição do homem no universo.

A vida se desenvolve numa consciência do mundo e de nós mesmos, dando-nos uma situação histórica definida. Assim, pois, não foi possível desperceber-se desse liame que une o homem ao mundo e ao refletir sobre si e sobre o que transcende a razão, criou-se a filosofia. Ela é, pois, fruto da necessidade, necessidade que tem o ser de se situar, não par renunciar à insatisfação, porque a ausência de crítica significa mergulhar na rotina de um mecanismo fictício, mas, para confirmar o valor de sua própria existência, dando-lhe estrutura e aprofundá-la no seio de uma ordem.

Assim nasceu e assim vive plena de problemas, problematizando e arrastando até uma visão larga e profunda de todas as coisas, fazendo com que a razão abandone a sua posição conformista e tenha cada vez mais, alargado o horizonte de sua ação.

Maria do Socorro Jordão Emerenciano
1960