SOBRE A FELICIDADE

Comentando acerca do primeiro Boletim do Centro de Estudos Filosóficos do Centro de Ensino Médio de Brasília, de 1960, João Morais me alertou que, em determinada passagem, havia um comentário de que eu iria falar sobre a felicidade. Na época, ainda cursando o 3º ano científico e saindo da adolescência, não me lembro o que realmente falei. Mas, posso afirmar que, certamente, em face de minha imaturidade, não expressei as mesmas idéias que tenho hoje, cinqüenta e cinco anos depois, sobre a vida e a felicidade. Contudo, uma coisa permanece a mesma: a dificuldade do tema.

O que é a felicidade, aonde podemos encontrá-la, ela realmente existe ou é uma utopia, ou como diz o poeta, “uma gota de orvalho numa pétala de flor”? Acredito que podemos nos defrontar com dois enfoques: um concreto e outro abstrato. Se felicidade implica em apenas momentos felizes, penso que ela está relacionada à fragilidade, pois a vida nos apresenta a todo instante, além dos ganhos, perdas e dores. Se também associarmos a felicidade à aquisição de bens materiais, ela também será ainda mais frágil do que uma pétala de flor. Entraremos num círculo vicioso de cada vez querermos mais e mais para nos sentir felizes e isto não tem fim, pois seria como colocarmos areia num saco furado. E aí, como sair desse impasse?

Sem querer entrar em aspectos religiosos, na medida em que para muitos a felicidade existiria numa união com a divindade, procuro-a no ser humano, no seu âmago, no seu estado de espírito. Assim, a Felicidade estaria não no Ter, mas no SER.

Acredito que uma pessoa que ama, que integra seus aspectos de personalidade positivos e negativos, aceitando-se como é, um simples ser humano, que enxerga e respeita o outro, aceita a vida com as adversidades que ela lhe proporciona, prazeres, dores, momentos alegres ou tristes, é uma pessoa feliz. A verdadeira felicidade, acredito, só pode realmente existir dentro do SER, no desenvolvimento de sua generosidade verdadeira, não para “ganhar o reino dos céus”, mas baseada na Gratidão pela própria existência e a daqueles que a rodeiam e amam. É uma força de vida, intrínseca a cada um de nós. É EROS.

Muitas coisas ainda poderiam ser ditas, mas prefiro parar por aqui, confessando a vocês o sentimento de que eu sempre me considerei, apesar das frustrações, dificuldades e perdas vividas nesses setenta e dois anos, uma pessoa feliz.

Obrigada.

Maria Silvia Regadas de Moraes Valladares
2015